quarta-feira, julho 27, 2016

Preleção 2016 das Templárias em Almourol

A reunião anualmente realizada em Almourol e arredores, no distrito de Santarém, serve de ocasião para recordar o passado, examinar o presente e prever o futuro.

Preleção 2016 das Templárias em Almourol
Houve tempos em que predizer o futuro era exclusivo dos adivinhos ou cartomantes, sobretudo na base de conjecturas sobre a ocorrência de fenómenos ditos naturais. Os progressos da ciência, após o Renascimento, permitiram estatisticamente erguer prognósticos. Ora, actualmente as pessoas reflectidas também sabem ao certo que a essência no homem é a verdade, a personalidade e é a mentira; que possui sagacidade, agudeza e é ardiloso nos negócios. Em Junho, As Templárias debruçaram-se sobre a chamada sociologia do direito, ou, por outras palavras, sobre o estudo das instituições que criam, interpretam e aplicam as normas que toleram ou encorajam um conjunto de condutas, enquanto proíbem ou desencorajam outras.

O comportamento desviante, neste caso inserido numa vertente pendente da sociologia criminal, mereceu uma análise mais desbastada; tudo no pressuposto de que o equilíbrio estável do processo interactivo constitui a textura fundamental de referência para a análise do controlo social.


Em seguida, relacionaremos, sucintamente, os conteúdos, para o efeito traduzidos para português dado que parte do evento é celebrada em francês, de alguns tópicos abordados na Preleção da 3ª edição do encontro anual das Templárias em Almourol, decorrido de 16 a 21 de Junho de 2016.



A Sociedade e o Poder


Todas as organizações políticas e governos assentam no poder. A sanção máxima da autoridade é a força física. O chefe de família, como o chefe da tribo, o senhor feudal, o monarca e a assembleia de representantes de uma democracia só mantêm a autoridade se forem suficientemente fortes para resistir a uma eventual rebelião - e, assim como está na natureza humana formar organizações políticas, também a "rebelião" é da natureza humana. A força da autoridade pode vir de poder carismático pessoal, ou de uma aberta demonstração das armas, geralmente feita pela polícia ou pelos militares. Ou simplesmente vir do peso dos números. Mas vejamos, mesmo numa democracia, a lei é imposta pela força: neste caso sobrevive porque há pessoas suficientes que apoiam a lei, o que lhe permite ganhar força contra os que se lhe opõem.

Sem nunca se distanciarem da sua estirpe militar, as Templárias salientam que todas as formas políticas procuram revestir de legitimidade o exercício da força, e, para esse fim, a religião e a magia sempre foram baluartes cobiçados. O panteão hindu reflecte as classes e castas sociais. Os tabos dos Polinésios eram sagrados. O totemismo dos índios norte-americanos era um conceito religioso: a própria palavra (ototeman, na língua Ojibwa dos Algonquins) significa, mais ou menos «ele é meu parente», o que implica a protecção do espírito do tótem. Os clãs baseados no totemismo asseguram assim uma unidade religiosa. Na Europa aplicaram-se, historicamente, princípios semelhantes. As autoridades religiosas e políticas combinavam-se nas pessoas dos papas medievais e dos monarcas, cuja autoridade era justificada por direito divino. De facto, as religiões tentam fazer progredir o homem actual de uma maneira constante e reunindo o maior número possível de membros, o que faz com que tal evolução se produza de forma muito lenta. Um exemplo disso é a religião cristã, que partindo das palavras de Cristo, Homo Initium, tenta transmitir uma mensagem iniciática ou a Igreja, consciente de que deve proceder a uma evolução, emprega, entre outros, alguns meios para o conseguir. Contudo, a má interpretação e, em certos casos, a deturpação maliciosa conduzem a um nasceiro bem diferente.

Sobre a posição das religiões, As Templárias congratulam-se com o facto dos representantes das correntes religiosas iluminadas lamentarem a tensão entre humanos e proporem a coexistência pacífica; pois a presente coexistência no meio só tem duas saídas possíveis: a transigência no temor de Deus, uma vida verdadeiramente pacífica, inspirada e protegida pela Divina Ordem Moral ou, então, encaminhar-se-á, cada vez mais, para uma paralisia gelada da vida internacional, cujos graves perigos nem mesmo agora são previsíveis. Infelizmente, alguns agentes podem ser ou dizer-se religiosos mas, nas decisões a tomar, sobretudo quando atingidos pela cegueira mundana, esquecem os princípios doutrinários e morais dos seus credos.

Na maior parte do mundo industrializado, o direito ao governo por descendência, como a noção de que o poder provém de Deus, tornou-se flâmula do passado. Nos países onde sobrevive a monarquia, o rei não passa de uma figura de proa, útil talvez como símbolo da unidade nacional, mas, diga-se, pouco importante como elemento funcional no exercício do poder político - excepto na medida em que o monarca, sendo o chefe nominal do estado, impede que esse papel seja representado por qualquer outra pessoa. A necessidade de um chefe de executivo para reconhecer um monarca constitucional constitui uma excelente limitação.

Assim, o poder pela descendência foi substituído pelo mito contemporâneo do poder por consenso. Como todos os mitos, expressa uma verdade: em democracia, governo algum consegue aguentar por muito tempo a oposição sustentada por uma maioria. Actualmente, é tão poderosa a ideia do governo pelo povo que lhe é prestada homenagem mesmo nos países totalitários, como os do bloco comunista, onde a oposição não é tolerada, e noutros que reelegem periodicamente os seus governantes, em eleições de partido único. Em suma, os modos de vida adoptados pela humanidade reflectem tradições sociais, circunstâncias geográficas (e físicas), políticas, religiões e governos.



A Sociedade Industrial


O homem moderno existe há cerca de 50 000 anos - um período muito curto na escala cronológica evolucionária. Durante esse período, contudo, transformou a Terra, modificando-a de tal modo que é justificável chamar-lhe o "mundo humano". Aos olhos da ciência o humano é essencialmente social. Tem vindo a criar sistemas sociais complexos e sem paralelo, baseados na cooperação voluntária e forçada entre os indivíduos. A inteligência humana procura sempre compreender a sua própria condição, especialmente em aspectos sociais. Consequentemente, surgiu uma ampla diversidade de justificações e racionalizações das circunstâncias sociais, geralmente na forma de tradições sociais, políticas e, claro, religiosas. Sendo que, as tradições sociais explicam o modo por que vivemos; as tradições políticas clarificam como e porquê governamos os outros (ou somos governados por eles); as tradições religiosas, essas, justificam as outras duas, geralmente em termos morais e/ou espirituais.

A história da humanidade está grifada pela beligerância, que é mais do que agressão por razões territoriais, ou a luta pelo alimento ou pela companheira, que se observa nos outros seres. É certo que a territorialidade e os factores económicos são significativos no espírito de agressão humana, mas os efeitos sociais e culturais ultrapassam-nos, muito provavelmente. Além disso, o humano, anatomicamente moderno, é dos poucos seres que luta para matar - talvez porque uma ameaça social seja mais perigosa que uma cominação meramente económica ou territorial. A maior parte das sociedades humanas não é auto-suficiente e adapta-se a esse facto permutando com outras as coisas que faltam. Com efeito, a evolução social é um conceito discutível porque nos exige que imaginemos quais as razões sociais (mais do que as tecnológicas ou geográficas, por exemplo) que os povos tiveram para viverem de um determinado modo. Também é discutível porque, de maneira geral, parte do princípio de que existe um certo processo evolutivo. Sejam quais forem as razões, é inegável que houve mudança. Já esmiuçada na publicação «Desmoronamento Nuclear» das Templárias, a mudança ocorre dentro de uma única geração. A transformação mais profunda e acelerada que jamais se verificou, deu-se (e continua a ocorrer) no processo denominado Revolução Industrial.

O homem industrial (por isso considerado evoluído), isto é, melhor aprumado, melhor alimentado, de vida mais longa e mais dotado de tempos livres que os seus antepassados, continua, ainda assim, insatisfeito com a sua situação. A industrialização intensifica uma consciência obcecada das divisões da sociedade, à medida que as pessoas se vêem avaliadas numa nítida escala salarial; simultânea e paradoxalmente, acaba por reduzir essas divisões, em termos gerais, porque aumenta a chamada «mobilidade social». Noutros termos e aos olhos da filosofia, o indivíduo assalariado sofre aquilo a que o revolucionário Karl Marx chamou «alienação». Além disso, os resultados dessa industrialização desassisada parecem preceituar, de modo patente, mais conflitos e prejuízos do que ordenação e benefícios.

Ainda sob o prisma filosófico, Aristóteles terá dito que o homem é um animal político e o estado é uma criação da natureza. Assim sendo, terá ele querido dizer que o ser humano, como espécie cooperativa e transmissora de cultura, tinha, à medida que evoluía, desenvolvido naturalmente formas de organização e controle social. Nesse caso, a organização política, embora possa ir dos estados-polícia repressivos até às tolerantes comunidades anarquistas, não é algo imposto. A opinião do filósofo grego também é defendida pela antropologia social, que identifica diversas estruturas políticas, apesar de nunca se ter encontrado um grupo que não as tivesse. A mais simples organização, a que se enquadra entre as mais simples economias dos caçadores-recolectores, é o bando. Concluindo a narração filosófica em torno desta questão, quando Marx "profetizou" que o estado acabaria por desaparecer, este teria provavelmente os olhos postos na nação-estado do século XIX, então dividida entre os campos litigantes do trabalho e do capital. As Templárias não se manifestam nesta matéria, mas sabe-se que a unidade fundamental da moderna organização política é a noção de estado.



A Sociedade e os Estados


Esta noção desenvolveu-se na Europa, em conjunção com as monarquias absolutas centralizadas, mas tem sido igualmente adoptada em todo o mundo. Por exemplo, uma das razões para o emergir de estados de partido único na África moderna, prende-se com as hostilidades tribais cuja expressão, embora democrática, impediria, julga-se, o desenvolvimento de uma consciência nacional e minaria a eficácia da administração centralizada. Para não penetrar na actualidade, a antiga União Soviética com os Georgianos ou Ucranianos (entre outros), ou, ainda, o Reino Unido - também aqui fugindo das conturbações actuais como a içada sob o timbre Brexit - com os Irlandeses, Galeses ou Escoceses dariam outros exemplos. Contudo, seja qual for o termo dado ao conjunto das instituições que controlam e administram uma ou mais comunidades consideradas estáveis, a história muito recente não deixa de demonstrar que as organizações políticas, como no caso da União Europeia, só podem expandir-se pelo consenso. As Templárias relembram que o dever de um líder, uma instituição ou um conjunto delas, neste caso dirigente, cifra-se, acima de qualquer instigação autista ou petulante, em conduzir incessantemente as tendências centrifugas para uma coordenação fecunda. Cabe-lhe resolver os problemas de interesse comum e garantir a marcha harmoniosa do conjunto. É da parte de quem ordena que se reclama mais sacrifício e mais capacidade; especialmente a competência, a coragem de enfrentar o futuro e de o orientar, a coragem de se comprometer e, acima de tudo, a perícia de suscitar a colaboração de todos os membros. Vista de longe, uma rocha escarpada parece inacessível, mas um líder digno desse título, saberá indicar a fenda pela qual se pode atingir a crista. Demais é necessário que os colaboradores, unidos, sejam daqueles que acreditam no esforço e que gostam de andar pelas cumeadas.

Actualmente, a saúde depende exageradamente de quem somos e onde vivemos. A satisfação das necessidades há muito consideradas básicas não está ao alcance de todos. Nem sequer os benefícios da medicina preventiva ou dos cuidados médicos, mesmo nas chamadas nações avançadas. Outras, apesar de menos favorecidas, protagonizam episódios capitalistas enquanto assistem à putrefação dos seus deveres, morais e materiais, para com o seu povo. A consciencialização e os conhecimentos científicos e técnicos de hoje, necessários para impedir a subnutrição por exemplo, têm destinos dissimulados. A este respeito, a sucessão de informações, ideias e ideais falsos e contraditórios conduz à confusão, ao isolamento, à apatia e/ou cinismo.

Sem precedentes históricos, a sociedade dita evoluída é levada a agir sem pensar. Consumir ou gastar ao toque do tambor serve o desígnio da economia capitalista moderna. A noção de comunidade, fora do contexto material, está a desaparecer. O bordão que afirma que possuir realiza, afinal não satisfaz os que possuem e aliena os que não possuem. A vida fácil não passa de uma utopia. A frustração e o desespero instalam-se. O crime aumenta, tal como a desobediência social, o preconceito racial e a divisão social. A lei e a ordem declinam. São impostos ao cidadão comum mais leis, mais regulamentos e mais restrições. As pessoas afastam-se das forças que deveriam protegê-las, e a prevenção do crime passa a segundo lugar em relação à manutenção dos privilégios e à criação de uma elite autoritária. Os actos violentos que se vão intensificando sobre a alfombra religiosa, apesar do benefício que estes oferecem aos negócios oportunistas (como o do armamento) e a certos movimentos considerados radicais, não passam, na verdade, de conflitos relacionados com problemas raciais, com a falta de regras, de valores, de princípios e de integração. É a desordem absoluta. A sociedade, dividida e despojada do arcaboiço moral, tornou-se egocêntrica, impune e violenta. De facto, muitas crises separadas contribuem para a questão dominante que o mundo enfrenta. Para as Templárias, explicar este distúrbio comportamental equivale, a esta luz, a penetrar na racionalidade que preside à ordem social.

Contudo, há alguns sinais de esperança. Nem todos se deixam arrastar pela computadorização dos valores. Além disso, a consciência dos perigos extremos da sociedade moderna faz com que algumas pessoas, distanciadas por opção, estejam decididas a provocar uma mudança. Estes prenúncios de reversão, apesar de subtis, são significativos, em comparação com o declínio catastrófico que se tem verificado nos valores tradicionais.



As Templárias e as Conclusões


Certo, não há acção eficaz sem organização, mas esta não existe senão onde há hierarquia. Todos devem colaborar para o fim previsto, mas sem que cada um saia do seu lugar. Quanto mais um ser cresce em perfeição, tanto mais se multiplicam os seus órgãos e se diferenciam no seu esforço: um órgão, uma função. É a lei da divisão do trabalho cuja inobservância conduz à confusão. Os cargos esmagadores e as qualidades excepcionais que a função «capital» impõe ou exige, dificilmente fazem sobressair as deficiências dos homens. Limitados no tempo, no espaço, nos conhecimentos adquiridos e na capacidade, não é para eles necessidade imperiosa completarem-se pela união? Certamente, na condição de que todos os órgãos se multipliquem e a faculdade coordenadora permaneça única. A electricidade foi a chave que abriu as portas para a tecnologia. Quando a depressão económica dos anos 30 ameaçara abrandar a evolução tecnológica, as exigências da Segunda Guerra Mundial duplicaram-na, despoletando uma vaga de recursos. A Guerra Fria do pós-guerra veio gerar um sentimento de alarme quanto a efeitos mais nefastos do «progresso» precipitado. O Clube de Roma assustou o mundo, em 1972, aquando do relatório alarmista com o título «Limites do Crescimento».

As Templárias adaptam-se notavelmente aos tempos. Por isso, sabem que a tecnologia está a mudar mais rapidamente do que a mente humana pode acompanhar, arrastando com ela a ambição dos mortais. Com as perspectivas tão velozes, o entusiamo, a exaltação, a obsessão e a exorbitância, assim como a desilusão, a frustração, o desespero e por conseguinte a indignação, senão o ódio, nunca foram tão açodados. Não obstante, as Templárias têm o sentido das proporções e não se deixam governar pelo pessimismo. Acautelai-vos desse deplorável capricho dos derrotistas, vergados e rabugentos, que receiam as responsabilidades, que não têm vontade, que recuam perante os obstáculos, que procuram antes de tudo estar a coberto, aos quais o mais louvável esforço não arranca senão regougo desconfiado, e cuja paixão não se satisfaz senão com a censura ou o medo. Há na vida duas categorias de seres: aqueles que procuram desculpas e os que procuram soluções. Por outro lado, quanto mais considerardes as boas qualidades daquele que se levanta, tanto mais benevolentes sereis a seu respeito. Procurai fundo, e encontrareis alguma fagulha nos mais deserdados dos seres humanos. Mesmo assim, é preciso precaver-se de generalizar prematuramente uma falta cometida, atribuindo-a a um defeito congénito e irremediável, porque, mesmo que isso fosse verdade, constituiria meio infalível de aniquilar de antemão qualquer possibilidade de recuperação.


As Templárias



Alvorada das Templarias no castelo de Almourol
Cortejo nocturno das Templárias em Almourol - alvorada do dia 17 de Junho de 2016.



terça-feira, maio 03, 2016

Desmoronamento Nuclear


As Templárias - Desmoronamento Nuclear odos sabemos, a inovação tecnológica e o nível da sabedoria avançaram a um ritmo tal, que o conhecimento humano tem duplicado de década para década, trazendo enormes transformações. Aliás, uma só geração assistiu ao avanço da Humanidade desde a roda dentada às viagens espaciais e auto-estradas da informação. A Idade da Pedra durou dois milhões de anos; as Idades do Cobre, do Bronze e do Ferro estenderam-se por 5000 anos; a idade da força da água e do vento ocupou 1000 anos até ser completamente abalada pela Revolução Industrial e pela força do carvão e do vapor, num curto espaço de 150 anos. Contudo, fazendo jus ao provérbio, na evolução nem tudo são rosas. A realidade, nua, não convém ao sonhador que, vivendo na estratosfera, esquece que tem a cabeça sobre os ombros e os pés sobre a terra. Como é sabido, noutros tempos, todos os combustíveis, como a madeira, o carvão e petróleo, se baseavam em plantas mortas. Queimá-los, para libertar a sua energia, era uma tarefa suja. O século passado assistiu ao aparecimento do primeiro combustível não vegetal, que produz energia sem qualquer sujidade (visível). Hoje, sabe-se que a chamada energia nuclear é afinal mais desasseada do que se podia imaginar.

Na passada terça-feira, a 26 de Abril, assinalou-se o trigésimo aniversário do fatídico acidente de Chernobyl, na Ucrânia. Não diminuindo este desastre, a dita poluição radioactiva ou, noutros termos, as 100 000 t de desperdício geradas anualmente, parte do qual permanecerá radioactivo por 100 000 anos, em «Desmoronamento Nuclear», As Templárias decidiram prestar algumas notas públicas sobre o desenvolvimento nuclear, à luz das trincheiras. Com efeito, aplicado ao arsenal militar, o assunto não deixa de merecer a nossa mais efervescente atenção. Evidentemente que é impossível e seria até rematada estultícia querer impor aos Governos uma ideia ou solução privada dos problemas.

Angustiados com a ameaça, os próprios cientistas têm vindo a lançar sucessivos gritos de alarme porque lhes pareceu que está em jogo a existência de todos os seres vivos na Terra, e alguns deles vão mesmo a ponto de afirmar que as próprias experiências feitas, embora com todas as cautelas, já produziram efeitos desastrosos nos seres humanos, sobretudo no que respeita à reprodução, e que serão sensíveis num futuro mais ou menos longínquo. Estão todos de acordo em declarar que o armamento de colbato e outros análogos representam o perigo mais pavoroso que se pode imaginar, por poderem causar o aniquilamento em massa de toda a vida terrestre. Não faltam, porém, outros, sobretudo os que indiscutivelmente têm responsabilidades directas no seu fabrico, que são mais optimistas. Por isso, tirando a média e considerando os avisos de todos eles, concluiremos que tais engenhos, se não destruírem totalmente a vida humana terrestre, devem causar devastações incomensuráveis, o que basta para não se ficar muito descansado.

Em exclusivo, no âmbito deste assunto, As Templárias recordam, por uma série de trechos, alguns dos primeiros alertas emitidos (a nível mundial) sobre os perigos das experiências nucleares, publicados na Imprensa Portuguesa. Embora careça do espaço necessário para a sua exposição nesta página, o âmago desses avisos pode ser consultado numa publicação anexa «Alerta Nuclear» das Templárias.

Perante estes factos, numa cruzada ou combate entre dois contendores apenas, correm o risco de sofrer danos irreparáveis, e até total aniquilamento, nações, povos e continentes que nada têm directa ou indirectamente com a luta. Que dois indivíduos cheguem à infeliz conclusão de resolver seus problemas (ou caprichos) por meio de uma «guerra», a soco ou a tiro, ainda se pode sofrer nas misérias da vida, embora seja ilegal. Mas se a luta e as armas escolhidas puderem causar danos aos indefesos cidadãos inocentes, sem a mínima relação com os contendores e suas brigas, o quadro toma molduras de crime premeditado. Bem entendido que deveremos esperar sempre o pior nestes conflitos pois, em geral, os provocadores de violência pouco ou nada se preocupam com problemas morais. As Templárias relembram o que se passou com o lançamento de material atómico sobre o Japão em 1945; bombas por assim dizer «inofensivas» quando comparadas às que estão, pelos vistos, na forja. Neste nipónico episódio, dar-se-á relevo a um detalhe muito frequente neste tipo de "bravuras": ficaram vivos os culpados - e sustentadores da guerra - e morreram os inocentes. Nas grandes batalhas do século XIX, o destino das nações era decidido num só dia. Por exemplo, na conhecida «Batalha de Sedan», em 1 de Setembro de 1870, os alemães humilharam a França numa tarde. Não é de surpreender que, quando a guerra eclodiu na Europa em Agosto de 1914, cada lado acreditasse que uma vitória rápida traria os seus soldados de regresso por altura do Natal. Mas as novas tecnologias e as novas vontades ditaram novos sentidos. Hoje, guerrear passou a ser um estilo de vida. Apesar dos supostos embargos, sanções e outros convénios mais ou menos sonsos, na verdade a capitalização da Guerra fez dela um jazigo extremamente rentável. Do armamento ao combustível empregues - muitas vezes contra civis - nesse teatro, a autoridade desse poderoso e ignóbil negócio é na verdade quem vai ludibriando a sociedade, invocando paz, estimulando guerra.

Em todos os casos de radioactividade, aplicando o plutónio ao uso civil ou militar, há que temer toda a espécie de infecções (secundárias) e o desgaste inútil da energia e reservas corpóreas. Em meados dos anos 90, as nações passaram a desconfiar dos programas de energia nuclear. No entanto, poucas ou mesmo nenhuma mostrou real intenção de abandonar tais programas. Parecem os sábios divididos em duas opiniões: a dos que profetizam tremendas desgraças e a dos que não vêem motivos para alarmes. Parece, porém, que, à medida que vão decorrendo os tempos, aumenta o partido dos profetas do terrorismo. Tirada a média, fica motivo de graves apreensões. Tanto assim que, quanto a jogos de palavras internacionais sobre o mítico desarmamento, os diferentes agentes concordaram em aconselhar tréguas nas experiências de armas nucleares. Em «Alerta Nuclear» As Templárias citaram alguns desses primeiros dizeres, publicados pela Imprensa diária portuguesa em Abril de 1957, para esclarecimento e de forma que, sobejamente documentadas também nesta matéria com afirmações de eruditos conhecedores e não só, não poderão ser acusadas do tão trombeteado secretismo. Quando a temática aborda a segurança pública, para nós não existem capítulos de segunda.

Por fim, esta publicação não pretende fertilizar pessimismos. As Templárias relembram que os desgostos não gerem senão coisas enfadonhas, os indolentes só dão origem a coisas tristes e os pessimistas não vão além das coisas mortas.




Alerta Nuclear


As Templárias - Alerta Nuclear
este inventário «Alerta Nuclear», complemento do assentamento «Desmoronamento Nuclear» publicado por ocasião do trigésimo aniversário do acidente de Chernobyl ocorrido a 26 de Abril de 1986, As Templárias evocam, com extremo rigor, trechos dos primeiros alertas sobre armamento e experiências nucleares noticiados na Imprensa diária portuguesa, neste caso em Abril de 1957.

Convirá precisar que a primeira explosão atómica experimental deu-se a 16 de Julho de 1945, no deserto do estado do Novo México, Estados Unidos da América do Norte, levada a efeito pelo grupo de cientistas que trabalhava e colaborava com o governo norte-americano para fins militares. A explosão deu-se às 5h30 com aparato e consequências devastadoras que satisfizeram as exigências de momento. Depois de concluídas as primeiras experiências, tendo sido publicados os resultados para as que se fizeram do lado de cá da cortina de ferro, a 1 de Novembro de 1952 foi lançada uma em Eniwetok. A chama da explosão apresentou 4 km de largura e 10 km de altura. No dia 1 de Março de 1954, uma nova experiência tornou-se pública devido a um incidente marítimo. Um barco de pesca japonês, o Fukuryu Maru N.5, tendo passado a algumas boas centenas de quilómetros do ponto da explosão, viu cair sobre ele uma espécie de cinza que, embora lhe parecesse estranha, não foi considerada; dias depois, a tripulação viu-se atacada de radioactividade, antes desta iniciar o seu processo de óbitos. O episódio, público, veio despertar um determinado número de pessoas reflectidas. Assim, passamos a citar alguns dos dizeres - considerados pertinentes apesar das condições, subserviências e balizamentos relacionados com regime de então - extraídos de jornais e revistas de referência em Portugal, nomeadamente do Diário de Notícias (DN), entre outros entretanto fusionados ou extintos.





Alertas na Imprensa portuguesa



«Se conseguirmos pôr termo às experiências com bombas atómicas, será, para a nossa pobre humanidade, uma alvorada radiosa, iluminada pelo sol da sua esperança» declarou Albert Schweitzer, fundador do Hospital de Lambaréne (no Gabão), durante um discurso em Oslo, a 23 de Abril de 1957. Mais tarde, o médico teólogo laureado com o Prémio Nobel da Paz em 1952, remata: «Somos portanto obrigados a considerar que todo o agravamento do perigo actual, provocado pelo desenvolvimento de elementos radioactivos libertos pelas explosões de bombas atómicas, constitui uma desgraça para a humanidade que é preciso impedir por qualquer preço».

No dia 23, em Paris, o físico francês Joliot-Curie, especialista em física nuclear laureado com o Nobel de Química em 1935, declarou - um ano antes da sua morte - que elementos radioactivos na atmosfera causariam manifestações de cancro, no caso de as experiências da bomba de hidrogénio não serem interrompidas: «O elemento radioactivo estrôncio 90 (Sr-90) produzido pelas explosões de bombas atómicas e de hidrogénio cai lenta e continuamente na terra com o pó e a chuva e deposita-se na vegetação. Homens e animais domésticos comem essas plantas e os seus organismos absorvem assim o estrôncio, prejudicial devido às suas radiações. Se as experiências não forem interrompidas, a quantidade daquele elemento que afecta os homens e, especialmente, os jovens que crescem, atingirá por certo um nível suficiente para causar numerosos cancros e leucemias. Muitas pessoas mostram-se indiferentes, julgando que é garantia o facto de viverem longe das zonas das explosões. Enganam-se, todavia. Um grande perigo pesa sobre os nossos descendentes se as explosões de armas nucleares não forem imediatamente interrompidas».

Na sexta-feira, a 26 de Abril, em resposta ao recente apelo do Dr. Schweitzer, o Dr. Libby, membro da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos, declarou que o perigo proveniente das experiências de armamento nuclear, à cadência em que eram realizadas, era mínimo. Nesse mesmo dia, em Washington, acrescentou: «Não quero dizer que não haja perigo nenhum, mas quero provar que é ínfimo em comparação com aqueles que os homens consideram normais durante a vida».

Na tarde do dia 26, em Sidney, o professor australiano Marcus Oliphant, então director do Instituto de Investigações Físicas de Camberra e por muitos considerado pai da fusão nuclear, declarou que: «dentro de cinquenta anos, a radioactividade será suficiente para pôr em perigo a vida do homem».



No Congresso dos Estados Unidos


No Congresso dos Estados Unidos, para uma melhor compreensão do quesito, as consequências genéticas da radioactividade foram expostas por três cientistas. Em Washington, nessa terça-feira 4 de Junho de 1957, afirmaram que: «as chuvas radioactivas já causaram um mal considerado irreparável ao sistema hereditário que constitui o molde em que se forma a raça humana». Estes três especialistas acrescentaram ainda que: «os estragos trazidos à raça humana multiplicar-se-ão proporcionalmente ao aumento das chuvas radioactivas porque, do ponto de vista da genética, não existe dose de radiação isenta de perigos. Se os ensaios nucleares continuarem ao ritmo actual, milhares, se não milhões, de seres humanos, nas gerações futuras, morrerão prematuramente, serão doentes, deformados e/ou sofrerão de qualquer maneira dos efeitos das radiações».

Deixemos o primeiro quadro negro que estes cientistas apresentaram e vejamos agora que declarações cederam, também nesse evento bicameral, acerca do segundo, respeitante a enfermidades e resistências às doenças. Com efeito, quanto à mais grave consequência a suportar pelo indivíduo exposto às radiações médias, um deles, o Dr. Muller, deixou claro que: «consistirá num enfraquecimento insidioso da resistência do corpo às afecções de toda a espécie, traduzindo-se por um abreviamento da vida, bem como pela provocação de certas desordens específicas, tais como a leucemia». Para os peritos, a relação entre a elevada incidência de certos tipos de leucemias e linfomas, entre outras hemopatias, e a radiação identificada em Hiroshima, Nagasaki e Chernobyl, é hoje uma constatação indiscutível.



A Gripe Asiática


Tratando-se de uma doença infecciosa detectada em Fevereiro de 1957, em Pequim (China), considerada epidemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em Maio do mesmo ano, a 13 de Junho, em Londres, a revista médica «Lancet», num estudo consagrado à epidemia de gripe que grassou nesse ano no Extremo Oriente, declarou que os médicos ingleses eram de opinião que ela podia alastrar à Europa (ficando estacionária durante o Verão e despertar no Outono). Um correspondente da revista chegou mesmo a reagir, por seu lado, dizendo que essa epidemia teria relação com as experiências atómicas. Segundo ele: «o aumento das radiações, devido às bombas atómicas ou a outras fontes, provoca um aumento da frequência das mutações dos micróbios. O Extremo Oriente - prosseguiu ele - é a região do globo que mais tem sofrido, até agora, com a queda das poeiras atómicas. Por conseguinte, é possível que a gripe que lavra naquelas regiões represente uma nova e nefasta consequência das experiências nucleares». Depois disso, a realidade esboçara um quadro ainda mais negro; em apenas uma dezena de meses, o vírus acabaria por atingir a população mundial.