Missão

ão há valentia eficaz sem amor. A vontade imposta só pela força é, sem dubiedade, capaz de levar à execução momentânea de determinado ofício; mas não pode obter aquele sustento íntegro das vontades, dos espíritos e dos corações, absolutamente necessária para cumprir a sua missão. Tal adesão não lhe será dada pelos membros parceiros, subordinados ou não, a não ser que sintam naquele que os conduz amor entranhável e sincero, desejo de dar-se-lhes de todo o seu coração e com toda a sua inteligência, vontade de promover a realização plena, em função da sua personalidade, de tudo o que neles existe em potência e, por isso, de fazer com que colaborem na obra comum. Nada se obtém, com efeito, enquanto uma imensa permuta de verdadeiro Amor não se tiver estabelecido entre todos aqueles que, nos diversos escalões da hierarquia, têm de colaborar no trabalho universal. Sede benévola mas nunca ingénua. Estai sempre disposta a ter confiança mas não a tenhais senão com conhecimento de causa. Aquele que não conseguiu conquistar-nos, que hesite em seus esquissos e não espere levar-nos longe no caminho da brandura. Mas se alguém se tornou senhor de nossos corações, facto inaudito, é-lhe consentida a audácia no seu desígnio. A mensagem é clara.


As Templárias, de espírito recto e disciplina rígida, num coração bondoso não se deixam alucinar nem pelo deficit nem pelo mal. Neste sentido, sem gládio exclusivista, inspiradas pelo humanismo extraem de preferência o que é bom; num gesto, o desejo mais amplo que ele; numa alma, a virtualidade generosa; num grão de mostarda, uma árvore em potência. Vistas as coisas à luz da perspectiva militar, pondo entre parênteses a realidade subjacente e a história dita contemporânea, poderíamos decerto invocar a conhecida fórmula do brioso General (Abel) Clément-Grandcourt: «O verdadeiro bravo, civil ou militar, espiritual ou temporal, sabe fazer o possível com o impossível». Não se trata, porém, duma rectidão marcial; antes duma Iluminação intestina dirigente que, proporcionando o seu esforço à missão, reserva sempre vivacidade para não ficarem sem prescrição nem fôlego no momento de subir a encosta farpada. Nos manuscritos do Mar Morto, o conceito filhos da luz entre os essénios é sequente. No Génesis, alude-se a este mistério na referência: «Faça-se luz, e a luz se fez». A este propósito, no yoga, a iluminação recebe o título de «samadhi» (ou moksha); no zen é tratada por «satori»; no sufismo é a «fana»; no taoismo aparece como «wu» (ou Tao/Dao Fundamental); para Sri Aurobindo (Ghose), a iluminação era a super mente. Na verdade, quando se semeia uma boa semente, esta quase nunca se perde. Pelo contrário, dá origem, mais tarde, a uma bela planta ou a uma árvore gigantesca, e com os seus frutos se alimentará o homem. Deitamos todas mãos à obra, que se o nosso trabalho responder a um pensamento justo e desinteressado, teremos contribuído para a Dignidade humana.


É um erro irremissível julgar-se que a indulgência e a delicadeza femininas são proibitivas da força. Com inquietação ou não, As Templárias esforçam-se por compreender os pensamentos distanciados e forâneos, insipientes ou profanos. Em todo o ser humano, existe complexidade de sentimentos que nem sempre afloram todos à consciência esclarecida. Dirigindo-vos ao que de melhor há num homem, chamais à luz (ver parágrafo anterior), sem que o interpelado dê por isso, os sentimentos que vão tornar-se vossos aliados. No tocante quer à juridicidade quer à tolerância, As Templárias consideram homens de todas as raças, de todos os países e de todos os credos, costumes e tendências aceites pelas leis de cada país. Da formação cristã, conservaram a ideia bela e profunda de que todo o homem é importante, não só como pessoa, como cidadão, mas como indivíduo fraterno. Contudo, actuando de acordo com a moral e com a sua concepção dos preceitos da unificação mundial, permitindo a harmonização dos subconscientes colectivos das diversas civilizações do mundo, dado que a base para a aliança das civilizações é a partilha dos valores, manifestam a sua mais expressiva repulsa perante toda e qualquer acção, quer exercida em proveito alienado próprio quer sob pretextos intrínsecos de tradição ou crença, catalisadora de violência. Outrora, as Ordens Militares continham em si o ideal monástico-religioso e os ideais da cavalaria medievais. Possuíam objectivos, estrutura e regras. Eram depositárias de grande parte da cultura do tempo e senhoras de enormes riquezas. Representavam poder. A importância que tiveram na formação, consolidação e desenvolvimento de Portugal (e não só) desde o início da nacionalidade. É justo destacar os Templários e, mais tarde, a Ordem de Cristo, sem a qual os Descobrimentos, a título de exemplo, não teriam sido possíveis. É certo que com o desaparecimento do perigo muçulmano na Península as ordens militares perderam a sua função principal, mas o seu declínio ou desaparecimento (ou transformação em simples ordens clausurais) encontra-se muito mal contado. As principais tranformações deram-se no século XVI, nomeadamente com a Ordem de Cristo, que deixou de ter a preponderância que aí desfrutava. Para os mais adestrados, trata-se este de um processo relacionado com a centralização do poder real e respectivo controle das Ordens. Ainda neste âmbito, destacamos a união dos mestrados das Ordens à Coroa, em 1551. Tudo isto confluía com o desejo da Santa Sé em uniformizar o mais possível a doutrina católica.

Discretas, ou despretensiosas, As Templárias são-no categoricamente. Inspiradas na virtude e na abnegação, conciliam ainda a independência e originalidade das suas concepções pessoais com o mais devotado respeito pelas ordens legítimas. Autoridade forte é aquela que se apoia na força do Respeito. Convirá, porém, realçar desde logo que sair dos limites por este traçado é não só símbolo de provocação, mas também desordem, cuja gravidade aumenta na medida da responsabilidade que se tem sobre uma colectividade.



As Templárias e a evolução



Não podemos nem devemos desejar que pare o desenvolvimento dos conhecimentos, o chamado "progresso", ainda que tenhamos de ser acometidos ou mesmo aniquilados pelo seu mau emprego. É a dura lição da História que todos os inventos se destinam a sustentar conflitos entre dois ou mais grupos distintos de indivíduos mais ou menos organizados e neles se aperfeiçoaram. Só depois do emprego maléfico e mortífero é que se procurou a aplicação dos inventos no bem-estar e desenvolvimento construtivo do homem. É lástima que assim seja, mas parece que não há remédio a este mal. Se as energias e dinheiros gastos em engenhos ofensivos e destruição tivessem sido despendidos em projectos de utilidade geral, viveríamos hoje numa atmosfera de regozijo e não de ansiedade e sofrimento. A humanidade continua entorpecida, consequente de conceitos excessivamente materialistas e mercantilistas dos tempos recentes, entretida apenas com valores inúteis e mundanos. Os atentados aos direitos hoje considerados fundamentais da pessoa humana, principalmente da mais vulnerável ou cujo agasalho apresenta menor capacidade de defesa, na realidade pouco o nada atormentam. Indisciplinada, alucinada e governada pelo encantamento endiabrado, por força dessa demência desgovernada, vê-se hoje refém do material, da prevaricação, da impunidade e do excesso de liberdade. Em todos os graus da escala social, na vida familiar como no labor profissional, se impõe a restauração do sentido da autoridade, e em contrapartida a reeducação do espírito de disciplina. A disciplina é a força matriz dos exércitos. É uma ideologia a que não falta o apoio da racionalização teórica, mas cuja ameaça advém sobretudo do facto de se insinuar, subtil mas eficazmente, no discurso dos políticos, dos encarregados da aplicação do direito criminal e nas representações colectivas. É também a força principal de uma nação que não quer parecer. O levantamento nacional exige a colaboração e a adesão de todos. Não é difícil identificar uma eventual ideologia de tratamento o essencial do conhecido positivismo e das suas concepções de política criminal. Ainda que investido duma autoridade cujo princípio remonta até Deus, quem manda permanece não obstante homem (frequentemente indigno do seu posto de comando).



Apenas o que nos custa nos faz evoluir, o que nos é realmente difícil, o que quebra a mecanicidade. Para além disto, será eliminado só aquele que não se queira adaptar. Já explicámos, como no comunicado de 2015 As Templárias contra o Terrorismo, que a nossa existência actual é totalmente diferente da dos nossos antepassados de há um par de séculos. A Honra e a Bravura para muitos manter-se-ão inalteradas, mas o tempo escorreu e hoje as nossas cruzadas são outras. Após tanta evolução e progresso de ideias, das técnicas e do saber acumulado, as missões actuais não se desenvolvem com a rigidez da antiguidade, visto que se foram adaptando às circunstâncias culturais. Para muitos, hoje As Templárias sugerem um romantismo e um ocultismo estranhos, dando azo à inevitável especulação. Contudo, se nuns o tempo soube conservar as virtudes sagradas, noutros, a malevolência - daqueles que incendiaram os velhos estandartes - continua também ela viva. Para estes renegados infiéis, assombrados pelo espírito obsceno de concupiscência endemoninhada, mais cómodo será distorcer os feitos e os factos (públicos). Para termos uma ideia, a este vício pertencem geralmente arrivistas e picarescos ufanos que desejam a todo o custo evidenciar-se, para os quais cobiçar num templo de respeito ou numa qualquer cavalariça de fama siginifica gozo, reputação e ostentação de privilégios. Desde que se mantenham numa espécie de oligarquia que lhes assegure algum êxito profissional, enfeitando-se muitas vezes com o saber dos outros, aproveitam todas as oportinidades para sobrelevar a sua própria personalidade e diminuir a dos outros.

As Templárias estão presentes. Nominalmente conscientes de si e sua origem, submetidas aos valores inerentes tendo memória de si, tem-se hoje considerado mais apropriado não exigir delas a não ser a religião comum a todos os cristãos, deixando a cada qual a liberdade dos seus sentimentos. Isto é, preparadas para as maiores e distintas proezas para o bem da humanidade, ultrapassando a intriga, os ódios e as invejas, serem denodadas dignas e fiéis e ter Honra e probidade, de tal forma que possam ser reconhecidas por esses mesmos comportamentos. As Templárias tornam-se desde modo um imperecível núcleo, impondo uma União internacionalmente aguerrida, despretensiosa mas inquebrantável entre as integrantes, que sem ela, estariam separadas para sempre umas das outras.




As Templárias e o sacrifício


Para As Templárias, não constituem barreiras que as detenham nem atemorização que as amedronte e/ou enfraqueça, mas trampolins que lhes dão ocasião de se alçapremar, obrigando-as a vencê-las. Quem nada deve nada teme. Deixando transparecer que receais uma resistência, provocai-la e dais-lhe corpo, pois numa missão as dificuldades existem para ser vencidas. Não receeis rebentar o abcesso num duelo, com os recalcitrantes - expeditos e aguçados - apontados, para pôr ordem no terreiro. Tirados os ventos, e restabelecida a confiança na Justiça (dum cumprimento dissuasor e não indulgente), restabelecer-se-á a Paz. Punir não é só um direito, é sobretudo um dever, por vezes doloroso, mas ao qual ninguém deve furtar-se. Por alma forte entende-se não a que conhece apenas as fortes emoções, mas antes aquela cujas fortes emoções não perturbam a afoiteza. Não há acção sem risco. Torna-se por isso necessário sopesar a ameaça, tentar diminuí-la, mas, por exemplo, conforme os termos do regulamento militar: «há que aceitá-la com vontade firme e resoluta». Todos sabemos que uma instituição, mais ou menos reservada, com objectivos claramente definidos, ainda que estes sejam nefastos para a humanidade, é imparável na sua consecusão. Contudo, entre ter os meios e tentar utilizá-los existe um enorme abismo, neste caso infranqueável.

As Templárias alojam, hasteiam e assentam a Honra em vez de habilidade. Esta Ordem, tendo em conta o seu independente carácter filosófico e filantrópico, das suas metas de justiça, virtuosidade e solidariedade humana, do seu espírito (esclarecido) progressista e da sua neutralidade política (imutável na teoria e na prática), possui características - lídimas - específicas próprias e deverá ser tratada tendo em conta o seu objecto social e as suas deferenças qualitativas em relação às outras. Não há nada mais prejudicial como a fraqueza e a lassidão, e nada mais humano do que a firmeza. Os regimes de pusilanimidade são os que ficam mais caros ao mundo.